Perto do inimigo
Viciados em jogos eletrônicos se enfrentam na internet
e em lojas que reúnem times adversários
Henrique Fruet
(Revista IstoÉ)
| Ricardo
Giraldez |
 |
| O
time G3X ficou em sétimo lugar em torneio na
Coréia e embolsou vários prêmios |
Depois que sai do consultório em Porto Alegre, o ginecologista
Carlos de Castro, 46 anos, se arma com metralhadora,
rifle, faca e extermina os adversários sem piedade.
Castro não é um criminoso, mas engrossa a lista dos
cerca de sete milhões de brasileiros que se renderam
aos jogos eletrônicos. Nos Estados Unidos, são 145 milhões
de viciados. À primeira vista, Castro parece solitário
diante do PC. Não está. Joga ligado pela internet a
outros membros do Clan da Véia Nadir (trocadilho da
palavra clã com lan, sigla para rede local de computadores),
clube que fundou e reúne 35 jogadores com o intuito
de promover batalhas na tela dos micros. Entre os participantes,
há até um estudante de oito anos. Todos são vidrados
em uma das versões de Quake, jogo de tiro em que o objetivo
é matar os adversários. “Quando eu tinha 18 anos, a
única diversão eram as lojas de fliperama. Hoje, não
preciso mais sair de casa”, diz Castro, ou Zé do Bode
para os inimigos virtuais mais íntimos.
A internet não é a única opção para quem quer jogar
em rede. As lan houses, lojas com computadores conectados
entre si apenas para disputa de games, não param de
crescer no País. No ano passado, havia em torno de 20
em todo o Brasil. Hoje, são mais de 200. A maioria serve
para que gamemaníacos disputem unidos por PCs em rede
o game Counter-Strike, que reproduz no mundo virtual
a antiga brincadeira de polícia e ladrão. Os jogadores
se dividem em dois times que se enfrentam, o dos terroristas
e o dos policiais. Sobram explosões, tiros de fuzis,
facadas e granadas na tela. Embora os jogos sejam criticados
por promover a violência, Rodrigo Amaral, sócio do Cyberlounge,
de São Paulo, afirma que eles funcionam com o objetivo
oposto: “É uma válvula de escape para o stress do dia-a-dia.”
A febre em torno do Counter-Strike é tanta que, além
de estar praticamente esgotado nas prateleiras brasileiras,
é tema de campeonatos internacionais patrocinados por
gigantes da informática como Intel e Samsumg. Os membros
do G3X, grupo formado por cinco estudantes paulistanos,
conquistou no final de 2001 o sétimo lugar em um torneio
na Coréia do Sul do qual participaram 135 jogadores
de 27 países. Já embolsaram prêmios como computadores
Pentium IV avaliados em mais de R$ 2 mil, jogos eletrônicos
e placas de vídeo. “Antes, eu encarava o Counter-Strike
como um joguinho. Quando comecei a ganhar prêmios, vi
que é algo sério”, diz Rafael Frid, 17 anos, que se
transforma no sanguinário Blood do G3X. “Para nós, eles
são atletas tão respeitados como os de qualquer outro
esporte”, elogia Leonardo de Biase, dono da Monkey,
rede de lan houses com 16 lojas em sete capitais brasileiras,
e empresário do grupo.
Os jogos de tiro não são os únicos a conquistar os
internautas. O Age of Empires, game de estratégia da
Microsoft em que o jogador tem que criar civilizações
e fazê-las prosperar, já conquistou mais de 15 milhões
de usuários no mundo e também é disputado em rede. “Já
joguei durante seis horas”, diz o campeão brasileiro
de Age of Empires, o paulistano Norson Saho, 22 anos,
cujo nickname (apelido) é Gary Payton. Ele abandonou
a faculdade de engenharia para se dedicar ao mundo dos
games. “Ainda não dá para viver só do jogo, mas as perspectivas
são boas”, diz ele, que já ganhou um computador, US$
600 em dinheiro e uma viagem para um torneio virtual
em Seattle.
Nem todos os jogos, porém, exigem a compra de um CD,
o aprendizado de inúmeros comandos e troca de tiros.
Há opções simples de divertimento em sites como www.atrativa.com.br
ou www.bananagames.com.br, onde se pode disputar gamão,
xadrez, o clássico jogo da velha e até sinuca. Não precisa
nem de um computador potente, já que os games rodam
nos computadores dos próprios sites. Basta que o internauta
se cadastre para começar a se divertir. “Os jogos online
têm um potencial enorme e o fliperama do futuro será
a residência de cada usuário”, diz Arakem Leão, presidente
do Banana Games. A empresa quer lançar este ano um sistema
de distribuição de jogos pela internet ao preço de R$
10 mensais por usuário.
Se parecem brincadeira de criança, os jogos são negócio
de gente grande. O setor movimenta US$ 17 bilhões no
planeta. Só as atrações online devem saltar de US$ 138
milhões para US$ 2,3 bilhões em 2005, segundo a consultoria
americana GartnerG2. A página americana Battle.net,
que entrou para o Guinness book – livro dos recordes
como o maior site de games da internet, possui 8,2 milhões
de jogadores cadastrados. O setor vai ganhar em abril
até uma feira em São Paulo, a Eletronic Games Expo Latin
America, que promete novos games, campeonatos e um congresso
sobre o tema. Além, é claro, de muito sangue e adrenalina
correndo no monitor do computador.
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