Fliperama moderninho

Febre entre adolescentes, "lan houses" viram ponto de encontro da garotada


por Débora Yuri, Revista da Folha

Folha Imagem
Marcelo Yoshikawa, 14, joga 'Counter-Strike' na Monkey da Vila Mariana

Anova mania infanto-juvenil paulistana envolve computadores modernos, competição acirrada e proíbe o consumo de cigarros e de bebida alcoólica. No mercado brasileiro desde 98, as "lan houses" -casas que oferecem jogos de computador em rede- espalharam-se pela cidade e hoje são febre entre adolescentes de 11 a 18 anos.

Meninos e meninas que costumavam passar horas brincando em casa sozinhos com seu micro correm para essa espécie de fliperama do século 21. Ali, eles disputam seu jogo favorito contra adversários reais, que estão no mesmo local. Paga-se em média R$ 4 por hora para utilizar um terminal e, sinal dos tempos, os pais não implicam -e até apóiam- a brincadeira: a maioria dos frequentadores mirins chega a bordo do carro do pai ou da mãe, que volta depois de um tempo para buscar o filho. Alguns descem na porta conduzidos por motoristas.

"Eu venho sempre deixar ou pegar minha filha aqui. Ultimamente, tenho feito um rodízio com outros pais que moram no mesmo prédio", conta a microempresária Ana Cláudia Rabay, 35, que chega para buscar a filha, Maithê Castilho, 14, e um amigo dela, Diego Pascale de Souza, 15.

"O pai do Diego trouxe os dois, então é a minha vez de pegar", completa Ana Cláudia, que faz esse roteiro uma vez por semana -e só uma vez mesmo, enfatiza. "Ela veio no sábado e queria voltar ontem, mas não deixei", afirma.

As "lan houses" ("lan" é abreviação de "local area network", algo como rede local de computadores) atendem a todos os tipos de fanáticos por jogos de computador. O grosso do público são jovens adultos de 19 a 24 anos, mas há também um fã-clube fiel de gente mais velha.

"Os garotos de até 18 anos respondem por cerca de 30% a 40% do nosso mercado", diz Leonardo De Biase, 29, gerente de comunicação da principal rede, a Monkey, com 30 lojas no país (15 em São Paulo).

Cerca de 90% dos frequentadores são do sexo masculino, praticamente todos da classe A/B. Na Monkey, menores de idade só podem ficar na loja até as 22h, mesmo que acompanhados dos pais. Para De Biase, a febre pegou a juventude paulistana porque "tem os moleques mais antenados, com poucas opções de entretenimento e porque é lazer interno e seguro".

"Eu acho que é um tipo de lugar confiável para eles se divertirem. São Paulo está muito violenta, e com minha filha aqui eu fico tranquila", concorda Ana Cláudia.

Boa parte do sucesso dessas casas se deve à interação "real" que proporcionam. Todos os computadores ficam interligados, e cada competidor pode jogar com a loja inteira. Isso gera um clima de bagunça inimaginável quando se joga contra uma máquina. "Acho chato jogar sozinha em casa. Aqui é sempre divertido, eu fico conversando com muita gente", diz Maithê.

Seu vizinho, Diego, outro assíduo frequentador de "lan houses", gosta da possibilidade de fazer novos amigos. "Outro dia, fiquei conversando um tempão com o cara que 'me matou'", conta, dando um "pause" no "Counter-Strike", o jogo preferido de 90% do público das casas -tem mais de 30 milhões de jogadores no mundo (estima-se que são cerca de 300 mil no Brasil). Na Coréia e no Japão, é equivalente ao futebol por aqui.

No "Counter-Strike", os competidores iniciam o jogo comprando de um arsenal as armas que utilizarão para tentar dizimar o inimigo, e é possível fazer parte do time de terroristas ou dos combatentes dos terroristas. A cada oponente executado, o jogador ganha dinheiro para comprar armas mais potentes.

"Nesses jogos, eles aprendem a apologia da violência, da exclusão e da competição pela competição. É preciso questionar por que um garoto de 14 anos só consegue ficar empolgado 'matando'", critica Maria De Los Dolores Jimenez Peña, 53, da Faculdade de Educação da PUC-SP.

A educadora recomenda, porém, que os pais não sejam extremistas. "Fazer proibições absolutas é ruim. O que não se pode permitir é que isso altere a vida normal do sujeito. Ele precisa ter outros interesses, praticar esporte, desenvolver o lado físico. Senão, fica 'atrofiado'", diz. Entre os pontos positivos citados pela educadora estão o desenvolvimento da percepção e do raciocínio rápido. Os negativos: prejudicam a visão, a postura e podem causar tendinite por movimentos repetitivos -além do risco de viciar.

Os críticos costumam comparar as "lan houses" a cassinos e afirmam que pode ser um caminho sem volta para cabeças jovens. "Eu não jogo mais, só vim ver quem estava aqui", conta L.S., 14, de boné e tênis de skatista. "Parei porque estava viciado, não conseguia me controlar. Tinha que vir todos os dias."

Se deve ser atividade controlada para adolescentes, no caso de crianças com menos de sete anos o melhor é vetar a brincadeira, defende a pedagoga Hilda Cerminaro Sarti, 48. "Essas devem ficar com brincadeiras mais lúdicas, que estimulem sua criatividade e curiosidade", diz.