Ação na rede
do jornal Zero Hora
Mãos
ágeis, rostos tensos, respiração trancada. As crianças
e adolescentes que lotam uma sala de jogos da Capital
na tarde da última sexta-feira não se incomodam com
o frio e a chuva fina que cai sobre a cidade. Lá dentro,
o ambiente é climatizado e as únicas janelas que importam
são as telas dos computadores. A atenção está voltada
para os passos do inimigo. Ele pode estar ao lado, no
outro quarteirão ou em um país de idioma estranho. A
distância, porém, é uma referência desprezada para os
que se arriscam nos combates dos jogos multiplayer (vários
jogadores), uma febre que se espalha pelo mundo no rastro
das redes de computadores.
Jogos
de ação como o Counter Strike, no qual exércitos de
terroristas e contraterroristas disputam territórios,
mantêm pilhas de servidores ocupados 24 horas ao dia.
Legiões de fãs desses jogos viram noites se enfrentando.
Os combates iniciados nas LAN Houses, salas com vários
micros conectados e especializadas em jogos, se estendem
para sites e listas de discussão. É o espaço para a
camaradagem. Os mais experientes revelam armadilhas
e manhas a serem utilizadas para a vitória no próximo
confronto.
Nos
últimos dois anos, as LAN Houses têm se popularizado
também no Brasil e em todos os países onde a Internet
avança. Mesmo com uma conexão comum, de linha discada,
é possível desafiar um adversário, pois os dados mais
pesados, como gráficos e arquivos de som, não trafegam
pela rede, ficam armazenados na máquina do usuário.
O
jogo EverQuest, da Sony, utiliza 45 servidores, localizados
em San Diego, nos Estados Unidos. Essas máquinas, cada
uma formada por 26 computadores com chips de 1 GHz,
realizam o trabalho mais pesado. Quando o jogador se
conecta, o programa instalado em sua máquina conecta-se
ao servidor, que então transfere informações sobre personagens,
monstros, armas, batalhas e a movimentação dos adversários.
Essa última é a chave do sucesso dos multiplayers: a
interatividade total com oponentes humanos, que não
têm padrões definidos de comportamento.
As
casas de jogos, mais do que fliperamas modernos, permitem
brincadeiras coletivas, em vez do isolamento, sempre
apontado como um dos maiores problemas dos usuários
de computadores. Counter Strike é um exemplo.
–
É um game relativamente velho, tem três anos, mas é
o que melhor oferece a opção de jogar em equipe. Não
é só atirar nos adversários, é preciso estratégia –
diz o sócio da LAN House Monkey Porto Alegre, Cristiano
Zaffari.
| LAN
HOUSES |
| São
lojas com dezenas de micros ligados em rede,
utilizados para os jogos online. São conhecidos
como multiplayers, pois admitem
que as partidas sejam disputadas entre vários
usuários |
Ambiente ainda é novidade
Conceito é importado da Coréia
Mais
de 30 adolescentes ocupam seus lugares em frente aos
computadores. Mãos nos mouses, fones no ouvido, explosões
de alegria denunciam o fim de uma fase, durante a qual
não faltam ameaças em voz altas aos inimigos. Apesar
da concentração, o silêncio está longe de ser obrigatório.
Como todos os ambientes para reuniões de amigos, uma
LAN House é sempre barulhenta
–
Muita gente vem aqui por curiosidade, faz amigos e acaba
formando um time. É diferente do isolamento de jogar
no PC de casa – diz o sócio da Monkey Porto Alegre,
Cristiano Zaffari.
Ele
conta que o conceito de LAN House é importado da Coréia,
onde é intensamente difundido. No Brasil, ainda está
no início – 3% do público sabe o que é uma destas casas
–, mas a aceitação está crescendo.
–
O público é variado e o objetivo é a diversão. Apostamos
em um ambiente sadio, onde não há consumo de álcool
ou cigarros, e seguro – afirma.
Segundo
ele, a maioria dos pais chega para deixar os filhos
um pouco desconfiada, e por isso a opção por um ambiente
claro e limpo – existem também casas mais voltadas para
adultos, que jogam na penumbra. Os funcionários controlam
especialmente os menores, que podem inclusive lanchar
sem sair do local, por um acerto com o vizinho McDonald’s.
–
Mas o público adulto vem bastante também, muitos combinam
para passar a madrugada jogando – conta Zaffari.
Na
Monkey Porto Alegre, paga-se R$ 4 por uma hora de jogo
durante a semana e R$ 5 no sábado e no domingo.
| COMBATE
VIRTUAL |
| Em
Counter Strike, há duas equipes, uma de terroristas
e outra de combatentes. Os terroristas têm
missões a cumprir, e seus oponentes devem
impedi-los. Além de tiros para todo o lado,
há uma exigência grande de estratégia: ninguém
ganha sozinho. A não ser o mais odiado jogador
de todos: o Team Killer (assassino do time)
– o TK é um espírito de porco que adora atirar
nos companheiros. Quando aparece alguém assim
na rede, é reclamação na certa. |
Torneio é em setembro
Seis
gaúchos, que formam a equipe South Alliance, se preparam
para disputar, em setembro em São Paulo, a fase seletiva
do campeonato mundial Counter Strike. Eles se chamam
por apelidos como Precision ou Decessus, que usam para
se identificar durante os combates na rede. Ricardo
Milani, 13 anos, é Precision quando inicia uma partida,
que já não é apenas um jogo descompromissado.
–
Treinamos há um ano e estudamos as táticas dos jogadores
europeus – diz Milani.
Jonathas
Zaffari, 15 anos, foi um dos integrantes que disputaram
as finais do torneio nacional da Monkey que ocorreu
no primeiro semestre, na capital paulista. A Monkey
Liga reuniu 360 times de todo o Brasil – mais de 1,8
mil jogadores – e teve diversas fases regionais. Eles
terminaram em 12º lugar, mas desde então, o grupo está
fechado e o trabalho vem sendo duro: querem ir à Coréia,
no campeonato mundial. Para Jônico – apelido de Zaffari
na rede –, a ida à LAN House serve mais para treinar
a mira.
–
Jogamos em casa e conversamos, mas aqui as máquinas
são mais rápidas e podemos ajustar o tiro – explica.
O
assunto não se esgota no final da partida: quatro dos
integrantes, que se encontraram à tarde na Monkey Porto
Alegre, saem da loja para esperar a carona para casa
e continuam conversando sobre Counter Strike. As gozações
de jogadores mais fracos e debates sobre a melhor forma
de atravessar determinada fase mostram que o jogo é
disparado o preferido. A fidelidade ao game é mostrada
pela desaprovação geral ao delatar o traidor Decessus
(no mundo real, conhecido como Tiago Alminhana), que
gosta também de outros jogos.
–
Eles ficam brabos quando eu jogo outras coisas – brinca
Alminhana.
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